MEDICINA INTEGRATIVA À BASE DE PLANTAS PARA A COLITE ULCEROSA

Os tratamentos de primeira linha para a colite ulcerosa (CU) consistem geralmente em medicamentos com ácido 5-aminossalicílico (5-ASA). No entanto, aproximadamente 50% dos doentes não respondem aos 5-ASA, pelo que passam a receber medicamentos imunossupressores ou tratamentos biológicos, como os anti-TNF. Mas mesmo estes apresentam uma eficácia limitada (não funcionam em todos os doentes) e estão associados a efeitos adversos, alguns deles graves.

É comprensível que tanto os doentes como os médicos procurem soluções mais naturais e integrativas para tratar a DII. Este interesse clínico por compostos naturais deu origem ao que alguns chamam de um renascimento da fitoterapia no sistema de saúde convencional.

As ervas utilizadas na medicina tradicional chinesa (MTC) têm despertado um grande interesse clínico pela sua eficácia na colite ulcerosa e têm sido objeto de importantes investigações. Entre estas ervas, destacam-se o aloé vera, o extrato de Andrographis paniculata, a Boswellia, o enema de xilei-san, o Qing dai e a curcumina.

A eficácia destes agentes foi estudada como terapia única ou utilizada em combinação com a medicação padrão como tratamento integral da CU. Este é o significado de medicina integrativa: aquela que combina a eficácia da medicina moderna convencional com a medicina tradicional ou alternativa para tratar o doente de forma integral, considerando não só os aspetos físicos, mas também os emocionais.  Esta abordagem é especialmente útil para doentes com doenças crónicas, pois potencia os resultados ao combinar a eficácia de ambas as abordagens.

Após analisar todas as investigações e ensaios clínicos existentes, a equipa de Nir Salomon, de Israel, focou-se nos agentes mais promissores e continuou o seu desenvolvimento até os transformar em fórmulas inovadoras que pudessem ser utilizadas com segurança e eficácia no tratamento da DII, alcançando um sucesso considerável com uma abordagem integrativa nas clínicas e hospitais de Israel, como se ilustra no seguinte caso clínico.

Produtos à base de plantas para tratar a CU: a propósito de um caso

Há vários anos, uma doente de 25 anos com CU extensa (pancolite) foi encaminhada pelo seu gastroenterologista para a unidade de medicina integrativa do Sheba Medical Center em Israel, um dos 10 melhores hospitais do mundo segundo a revista Newswek. Tinha-lhe sido diagnosticada CU 8 anos antes, aos 17 anos, e tinha sido tratada com medicação oral e tópica de 5-ASA, bem como com azatioprina (fármaco imunossupressor). No entanto, continuava a sofrer de surtos periódicos.

A sua colonoscopia mostrou uma inflamação grave de todo o cólon, um aumento da proteína C reativa (PCR) e da contagem de plaquetas. Depois de um aumento na dose de azatioprina não ter melhorado o seu estado, começou a ser-lhe administrado infliximabe (fármaco biológico utilizado na CU e noutras doenças autoimunes) combinado com a azatioprina e mesalazina (5-ASA).

No início, respondeu bem, exceto por duas reagudizações que foram atribuídas a “infeções oportunistas” (infeções a que são mais vulneráveis as pessoas com o sistema imunitário enfraquecido pelo uso de tratamentos imunossupressores). Interrompeu o infliximabe após 15 meses de tratamento e continuou com azatioprina e mesalazina com boa resposta clínica.

Ao fim de 1 ano, um novo surto exigiu a reintrodução do infliximabe. A doente respondeu inicialmente, mas após a primeira infusão perdeu a resposta ao tratamento, mesmo depois de a dose de infliximabe ter sido duplicada.

Nesse momento, foi encaminhada para a unidade de medicina integrativa do Sheba Medical Center. A doente tinha de 6 a 8 dejeções por dia, com hemorragia notória, urgência grave e dor abdominal espasmódica. Tinha suspendido a azatioprina e o infliximabe, e apenas continuava a tomar mesalazina. O seu nível de PCR era de 7,42, as plaquetas de 531 e a hemoglobina de 11,5. A sua sigmoidoscopia mais recente, um mês antes, mostrou uma inflamação moderada a grave do cólon sigmoide com uma pontuação endoscópica de Mayo de 2.

Começaram a tratá-la com cápsulas de Qing dai (QD) e uma nova composição de curcumina (Qura®, 3 g/dia). Ao fim de 2 semanas, apresentou uma melhoria significativa dos sintomas. Ao fim de 6 semanas, relatou a resolução completa dos sintomas e foi-lhe aconselhado que realizasse um teste de calprotectina fecal para avaliar a cicatrização da mucosa. Às 12 semanas de tratamento, o seu nível de calprotectina fecal era de 30µg/g, o que indicava uma inflamação inativa. Após 6 meses de tratamento, foi submetida a uma colonoscopia completa que mostrou uma melhoria significativa, e a maior parte do cólon apresentava cicatrização da mucosa.

Este caso demonstra que a CU moderada a grave pode ser tratada eficazmente com um modelo integrador, mas é apenas um de muitos. Existem cada vez mais evidências da eficácia dos compostos e das fórmulas à base de plantas.

Qing Dai para tratar a CU

O Qing dai (indigo tinctoria) tem sido utilizado para tratar muitas condições hemorrágicas, incluindo a colite. Recentemente, tem sido estudado para o tratamento de várias doenças inflamatórias. In vivo, Xiao et al. demonstraram que o pó de Qing dai podia melhorar as respostas inflamatórias num modelo experimental de colite.

Em 2019, Suzuki et al. publicaram uma série de casos de doentes com CU que foram tratados concomitantemente com QD com resultados promissores. Anteriormente, um estudo clínico piloto aberto de Sugimoto et al. demonstrou que a QD era eficaz para reduzir a atividade clínica e endoscópica em doentes com CU ligeira a moderada.

Curcumina para tratar a CU

A curcumina é um composto fitoquímico ativo derivado da especiaria comum: açafrão-da-índia (Jiang huang). Este composto tem sido objeto, durante décadas, de numerosos estudos como tratamento contra o cancro, para a cicatrização de feridas, doenças neurodegenerativas e, mais recentemente, a DII.

O primeiro ensaio clínico aleatorizado e controlado investigou a curcumina como tratamento adicional à mesalazina para doentes com CU em remissão clínica. Durante o tratamento inicial de 6 meses, apenas 2 dos 43 doentes tratados com curcumina tiveram uma recaída da doença, em comparação com 8 dos 39 doentes tratados com placebo (p=0,040).

Em 2014, a equipa de Nir Salomon realizou um ensaio aleatorizado e controlado por placebo no qual utilizou um modelo integrador com terapia adicional de curcumina para otimizar o tratamento com 5-ASA. Os doentes com CU ativa ligeira a moderada que não estavam a receber 5-ASA foram tratados com 3 g/dia de curcumina ou placebo durante 4 semanas. A curcumina demonstrou ser superior ao placebo na indução da remissão clínica e endoscópica

Com evidências cada vez maiores de ensaios clínicos e da prática clínica real, um modelo clínico integrativo sistemático destas terapias à base de plantas, juntamente com a medicina convencional, é claramente justificado.

Referencias:

  • Integrative Herb-Drug Therapies for Ulcerative Colitis | Evinature
  • Xiao HT, Peng J, Hu DD, Lin CY, Du B, Tsang SW, Lin ZS, Zhang XJ, Lueng FP, Han QB, Bian ZX. Qing-dai powder promotes recovery of colitis by inhibiting inflammatory responses of colonic macrophages in dextran sulfate sodium-treated mice. Chin Med. 2015 Oct 13;10:29.
  • Suzuki H, Kaneko T, Mizokami Y, Narasaka T, Endo S, Matsui H, Yanaka A, Hirayama A, Hyodo I. Therapeutic efficacy of the Qing Dai in patients with intractable ulcerative colitis. World J Gastroenterol. 2013 May 7;19(17):2718-22. 
  • Shinya Sugimoto, Makoto Naganuma, Hiroki Kiyohara, et al.; Clinical Efficacy and Safety of Oral Qing-Dai in Patients with Ulcerative Colitis: A Single-Center Open-Label Prospective Study. Digestion 8 June 2016; 93 (3): 193–201.
  • Lang A, Salomon N, Wu JC, Kopylov U, Lahat A, Har-Noy O, Ching JY, Cheong PK, Avidan B, Gamus D, Kaimakliotis I, Eliakim R, Ng SC, Ben-Horin S. Curcumin in Combination With Mesalamine Induces Remission in Patients With Mild-to-Moderate Ulcerative Colitis in a Randomized Controlled Trial. Clin Gastroenterol Hepatol. 2015 Aug;13(8):1444-9.e1. 
  • Lin Y, Liu H, Bu L, Chen C, Ye X. Review of the Effects and Mechanism of Curcumin in the Treatment of Inflammatory Bowel Disease. Front Pharmacol. 2022
  • Sharifi-Rad J, Rayess YE, Rizk AA, Sadaka C, et al.; Turmeric and Its Major Compound Curcumin on Health: Bioactive Effects and Safety Profiles for Food, Pharmaceutical, Biotechnological and Medicinal Applications. Front Pharmacol. 2020 Sep 15;11:01021. 

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